UBERIZAÇÃO DO TRABALHO DOCENTE: o ensino remoto como plataforma de exploração

Autores

DOI:

https://doi.org/10.24065/re.v16i1.2918

Palavras-chave:

Uberização; Precarização do trabalho; Ensino Remoto Emergencial.

Resumo

Este artigo analisa a Uberização das relações de trabalho no contexto contemporâneo, destacando seus impactos na precarização laboral e na reconfiguração das dinâmicas produtivas, especialmente nas áreas de transporte e educação. A partir de uma abordagem teórica crítica, discute-se como a lógica neoliberal, associada ao avanço das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC), promove modelos organizacionais que deslocam custos e riscos para os trabalhadores enquanto maximizam lucros corporativos. A Uber é tomada como exemplo paradigmático, revelando a exploração por meio da flexibilização contratual, ausência de garantias trabalhistas e intensificação do controle via plataformas digitais. No campo educacional, a pandemia de COVID-19 acelerou a transição para o Ensino Remoto Emergencial (ERE), evidenciando a precarização docente por meio da sobrecarga de trabalho, da ausência de formação adequada e da responsabilização individual dos educadores pela adaptação tecnológica. O artigo demonstra que o ERE opera sob uma lógica semelhante à da Uberização, em que o professor se torna um prestador de serviço submetido à vigilância, exigências de produtividade e ausência de amparo institucional. Conclui-se que a Uberização, longe de representar uma inovação emancipadora, expressa a reinvenção da exploração capitalista por meio de ferramentas digitais. A naturalização desse modelo representa riscos profundos à dignidade do trabalho e à sustentabilidade das profissões, exigindo reflexão crítica e resistência ativa frente à expansão de um sistema que transforma inovação em instrumento de precarização.

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Biografia do Autor

Rafael André de Barros, Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas

Bacharel em Administração (UFAL, 2011). Administrador (CRA/AL 1-2657). Mestre em educação (UFAL,2012). Doutor em Educação (UFAL, 2023). Docente do Centro de Educação a Distância (CED) da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL), da Universidade Aberta do Brasil (UAB). Coordenador do CST em Gestão Hospitalar da UNCISAL. Membro do Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) na qualidade de avaliador in loco de cursos superiores na modalidade presencial e a distância e de IES. Editor Adjunto e parecerista ad hoc do Periódico/Revista Ensaios Pedagógicos do Departamento de Ciências Humanas e Educação (DCHE) e vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos - Campus Sorocaba. Integra, na qualidade de pesquisador, o Laboratório de Inovação e Sociedade: saúde, educação e tecnologias), cadastrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq e vinculado ao Centro de Educação a Distância e do Grupo de Pesquisa Educação para Saúde Programa de Pós-graduação stricto sensu Ensino em Saúde e Tecnologia, ambos vinculados à Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas.

Edna Cristina do Prado, UFSCar - Universidade Federal de São Carlos

Pós-doutorado em Educação no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa; (IE/UL); doutorado em Educação Escolar pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP); mestrado em Educação Currículo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), ambos na área de políticas públicas para a EJA; especialização em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP); especialização em Tutoria em EaD pelo Senac de Curitiba; especialização em Ecoturismo pela Universidade Federal de Lavras (UFLA); Especialização em Docência da Língua Inglesa pela Universidade Anhembi Morumbi, licenciatura em Educação Física pela Faculdade de Educação Física de Santo André (FEFISA); licenciatura em Pedagogia pela Universidade do Grande ABC (UNIABC); licenciatura em Letras e bacharelado em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP); bacharelado em Direito pela Faculdade Maurício de Nassau (FMN); bacharelado em Teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana (FTSA). Professora Titular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) no curso de Pedagogia e dos cursos de mestrado e doutorado do Programa de Pós-graduação em Educação - PPGE da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas Estado, Políticas, Planejamento, Avaliação e Gestão da Educação - GEPLAGE. (UFSCar/CNPq) Membro do Grupo do Pesquisa Gestão e Avaliação Educacional - GAE (UFAL/CNPq). Editora da Revista Ensaios Pedagógicos UFSCar. Diretora da Seção Estadual da Anpae Alagoas biênios 2011-2013/2013-2015. Tem experiência em docência e na gestão da educação básica e ensino superior, atuando principalmente nos seguintes temas: Gestão Educacional; Políticas Públicas; Ensino Superior e Educação Jurídica. e-mail: wiledna@uol.com.br. ORCID N 0000-0001-8226-2466

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Publicado

2026-05-04

Como Citar

BARROS, Rafael André de; PRADO, Edna Cristina do. UBERIZAÇÃO DO TRABALHO DOCENTE: o ensino remoto como plataforma de exploração. Revista Exitus, [S. l.], v. 16, n. 1, p. e026016, 2026. DOI: 10.24065/re.v16i1.2918. Disponível em: https://portaldeperiodicos.ufopa.edu.br/index.php/revistaexitus/article/view/2918. Acesso em: 13 maio. 2026.

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